Etimologia · Rota do latim

Origem da palavra carnaval: a ordem de jejum medieval que virou a maior festa do planeta

Itália medieval · Latim (carnem levare) · Leitura de 6 minutos

Praça de vila europeia medieval à noite, foliões mascarados em banquete à luz de tochas enquanto criados retiram travessas de carne, brilho âmbar contra sombras índigo

Repare no paradoxo. A palavra que hoje nomeia quatro dias de excesso, fantasia e corpo na rua nasceu como aviso de despensa.

No latim da Europa medieval, ela marcava o último dia de comer carne antes de quarenta dias de jejum. Da ordem de renúncia saiu o nome da festa mais desmedida que uma cultura já inventou.

significado hoje

Hoje carnaval é sinônimo de folia. Blocos, escolas de samba, trios, fantasia e rua tomada por dias seguidos.

No Brasil, a palavra virou identidade nacional, a festa que o país exporta como imagem de si mesmo.

Nada no uso atual lembra jejum, penitência ou calendário religioso. E, no entanto, a origem é exatamente essa.

a raiz

A hipótese aceita pelos estudiosos liga carnaval ao latim *carnem levare*, "retirar a carne", "tirar a carne da mesa". Era a véspera da Quaresma, o último dia de comer carne antes de quarenta dias de abstinência.

Documentos medievais da Itália registram as formas *carnelevare* e *carnelevarium*. O italiano foi encurtando o termo até chegar a *carnevale*. Do italiano, a palavra passou ao francês *carnaval* e, dele, ao português.

A etimologia popular criou versões mais poéticas. Uma lê *carne, vale* como "adeus, carne", despedida em latim. Outra apontava para *carrus navalis*, o carro naval de antigas procissões.

As duas perdem para os documentos. Dicionários como o Treccani tratam a hipótese do *carrus navalis* como infundada. O que a palavra guarda é o gesto concreto de tirar a carne da mesa.

a viagem

Foi na Itália que a véspera do jejum virou instituição. *Carnevale* passou a nomear o ciclo de festas antes da Quaresma, e nenhuma cidade o levou tão a sério quanto Veneza, com suas máscaras e bailes nos séculos XVII e XVIII.

O francês adotou *carnaval* no século XVI, importado do italiano. Pela via francesa, língua de prestígio da época, a palavra se espalhou pelo espanhol, pelo inglês e pelo português.

Portugal, porém, já tinha sua festa da véspera: o *entrudo*, do latim *introitus*, a entrada da Quaresma. Era brincadeira de rua áspera, de água, farinha e limões de cheiro voando de janela em janela.

Foi o entrudo que atravessou o Atlântico com a colonização e se instalou nas cidades do Brasil, para desespero das autoridades, que o proibiram várias vezes sem sucesso.

No século XIX, a elite do Rio quis trocar o entrudo grosseiro por algo à europeia. Importou de Paris e de Veneza os bailes fechados e o nome francês: carnaval. A palavra chegou como projeto de refinamento.

A rua, porém, tomou o nome emprestado e fez dele outra coisa. Cordões, ranchos e blocos ocuparam a festa com percussão e corpo. Em 1928, no bairro do Estácio, nasceu a primeira escola de samba, e o desfile virou a face mais visível da folia.

Linha do tempo da palavra carnaval

  1. Latim medievalDocumentos da Itália registram *carnelevare* e *carnelevarium*, a locução que marcava o dia de tirar a carne da mesa antes da Quaresma.
  2. Século XVIO francês adota *carnaval*, importado do italiano *carnevale*, e passa a difundir a palavra pela Europa.
  3. Séculos XVII e XVIIIVeneza transforma o carnaval em espetáculo de máscaras e bailes, atraindo viajantes de todo o continente.
  4. Século XIXA elite do Rio de Janeiro importa o nome francês e os bailes europeus para substituir o entrudo colonial.
  5. 1928Nasce no Estácio a primeira escola de samba, e o desfile se torna o rosto do carnaval brasileiro.

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o que fica

Carnaval é um caso raro de palavra que virou o contrário de si mesma sem trocar de corpo. O nome que mandava retirar a carne passou a nomear a festa que a celebra, a carne da mesa e a carne da pele.

A inversão não é acaso, é a lógica interna da festa. O carnaval medieval só existia porque o jejum existia: era a válvula antes da disciplina, o excesso com hora para acabar.

O Brasil herdou a válvula e soltou a disciplina. A Quaresma esmaeceu como prática social, mas a festa que a antecedia cresceu até virar identidade nacional.

Toda vez que alguém diz carnaval, pronuncia, sem saber, uma ordem de jejum da Europa medieval. A carne que devia sair da mesa ficou guardada dentro da palavra. E a palavra, séculos depois, desfila.

Perguntas frequentes

Qual é a origem da palavra carnaval?

A hipótese aceita liga o termo ao latim *carnem levare*, "retirar a carne", que designava a véspera da Quaresma, último dia de comer carne antes do jejum. A forma medieval *carnelevare* virou o italiano *carnevale*, que passou ao francês *carnaval* e ao português.

Carnaval vem de "carne, vale" ou de "carrus navalis"?

São etimologias populares, não confirmadas. "Carne, vale" (adeus, carne) e *carrus navalis* (carro naval de procissões) circulam há séculos, mas dicionários como o Treccani tratam a segunda como infundada. A explicação aceita continua sendo *carnem levare*.

Como o carnaval europeu virou festa brasileira?

Chegou pela elite do Rio no século XIX, que importou o nome francês e os bailes de Paris e Veneza para substituir o entrudo colonial. A rua tomou o nome e o encheu de percussão e blocos, e em 1928 surgiu a primeira escola de samba.

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